Nancy Fraser
Considero a 'teoria política de reconhecimento' como a mais significativa "invenção teórica" no campo da sociologia, da sociologia política, da ciência política; desde a queda do muro de Berlim. E diria que essa 'virada para o reconhecimento' se deve, pelo menos em teoria, a três autores: Charles Taylor, Axel Honneth e Nancy Fraser.
A tese principal deste debate é que todas as lutas sociais são lutas por reconhecimento. O que é muito diferente daquilo que Inglehart chama de era 'pós-materialista' que consistiu segundo esse autor na mudança de demandas políticas contemporâneas, que migraram da esferas econômica para a simbólica. Para ser mais justo, diria que segundo Inglehart, as novas demandas se orientam para questões ligadas a direitos, ecologia, liberdade de expressão, etc.
A grande mudança proposta por Charles Taylor é que todas as lutas sociais, inclusive aquelas que foram antes identificadas como lutas sindicais, guerras, reivindicação de aumento salarial, descolonização e outas, são lutas por reconhecimento. E mais esse autor, coloca o reconhecimento como uma 'necessidade primária', uma 'exigência vital' do ser humano. Para Charles Taylor, essa exigência é ainda mais urgente nas sociedades multiculturais como Canada, Estados Unidos ou Austrália. Portanto, há uma exigência de reconhecimento para os indivíduos que são lesados moralmente porque seu valor e/ou identidade não são/é devidamente respeitado(s). Nesta concepção, a auto-estima se transforma num direito fundamental, e mais, da responsabilidade do Estado. Taylor ainda afirma que as políticas de reconhecimento têm uma fundamentação moral.
Evidentemente essa tese levantou um grande debate no âmbito acadêmico. Primeiro, quero mencionar Axel Honneth e o lugar que ocupa para a teoria crítica. Quando ele adere ao tema do reconhecimento, o qual transforma em seu maior projeto filosófico, a teoria crítica estava em uma situação de estagnação, crise, por sua falta de renovação desde os anos de glória de Habermas. Inclusive, a crítica à teoria crítica veio da própria Alemanha com autores como Sloterdjik, na França de Rancière, na Itália de Maramao. Axel Honneth, herdeiro filosófico de Habermas não deixou de criticar a falta de uma perspectiva genuinamente sociológica na obra de seu mestre. E por isso propõe colocar sua teoria de reconhecimento no centro da teoria crítica, buscando os elementos básico de sua tese em Hegel.
Charles Taylor
Honneth, afirma, como Charles Taylor, que todas as lutas sociais são lutas por reconhecimento. O não-reconhecimento para ele causa danos à auto-estima pessoal do indivíduo, impedindo-o de se perceber positivamente enquanto ser humano. Para o benefício de sua teoria que seria criticado mais tarde por sua tendência psicologizante, Honneth recorreu à teoria de George H. Mead sobre a intersubjetividade. Ele combina as premissas filosóficas de Hegel e a teoria da subjetividade de Mead para efetuar duas operações fundamentais para a sua tese: 1. identificar todas as lutas como lutas por reconhecimento; 2. descrever os danos morais e psicológicos do não-reconhecimento, bem como seus remédios. Contudo, a teoria de Honneth não tem uma perspectiva sobre o Estado, ao contrário de Taylor. Ou seja, aquela crítica de Althusser a Karl Marx sobre uma 'lacuna' (a falta de uma teoria de Estado em Marx) vale também para Axel Honneth. Para ele, diria Fraser mais tarde, bastava mudar as condições simbólicas de não-reconhecimento para solucionar os problemas de desigualdades sociais, etc.
Axel Honneth
Uma das mais importantes críticas de Fraser é justamente contra essa perspectiva psicologizante de Honneth. Mas, eu diria que a mais importante de suas críticas é fundamental pois não reconhece a 'reificação' do reconhecimento, nem a 'substituição'. Para ela, todas as lutas sociais não podem ser consideradas como lutas por reconhecimento. Inclusive, ela afirma a incapacidade dos teóricos dessa primeira tese de demonstrar tal reificação de tal forma que sua tese se transforma numa tautologia (tudo é reconhecimento).
Para Fraser, há dois tipos de lutas sociais fundamentais que requer dois tipos de remédios ou de políticas: há
lutas por redistribuição e lutas por reconhecimento. As lutas de redistribuição requerem políticas de redistribuição e as lutas de reconhecimento requerem políticas de reconhecimento. Por isso justamente, sua teoria é chamada de teoria dual. Para essa autora, é agora mais importante redefinir as bases da perspectivas do reconhecimento. Primeiro, seus remédios não têm fundamentação ética (o caso de Honneth) mas moral. O reconhecimento não é uma política de identidade mas de status. Fraser chama a sua teoria do reconhecimento de 'modelo de status'. Ela pretende se afastar de uma justificativa ética para o seu problema; por isso propõe o princípio da 'paridade participativa' que eleva ao nível da
moralität. Para ela, é absolutamente fundamental evitar o nível da ética que apresentaria certos perigos.
A teoria do reconhecimento está longe de ter se esgotado. É preciso que se retome as primeiras abordagens dos precursores; que suas conclusões sejam reavaliadas com as perspectivas de nosso tempo, e que sejam confrontadas com as conseqüências dos múltiplos fundamentalismos.